Carta Pastoral de D. António Couto

 

 «E EU também te digo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”» (Mateus 16,18).

«Jesus constituiu a Igreja, colocando no seu vértice o Colégio Apostólico, no qual o apóstolo Pedro é a “pedra” (cf. Mateus 16,18), aquele que deve “confirmar” os irmãos na fé (cf. Lucas 22,32). Nesta Igreja, porém, como numa pirâmide invertida, o vértice situa-se por debaixo da base. Por isso, aqueles que exercem a autoridade chamam-se “ministros”, porque, segundo o significado originário da palavra, são os mais pequenos de todos» (Francisco, Discurso na comemoração do 50.º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, 17 de outubro de 2015).

 «Vinde a mim todos os que andais cansados e afadigados, e eu vos farei repousar. Tomai o meu jugo sobre vós, e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para as vossas vidas, porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve» (Mateus 11,28-30).

 «No dia seguinte, João estava lá outra vez, e, com ele, dois dos seus discípulos, e fixando os olhos em Jesus, que passava, diz: “Eis o cordeiro de Deus”. E ouviram-no os dois discípulos a falar e seguiram Jesus. Tendo-se voltado, e tendo visto que eles o seguiam, Jesus diz-lhes: “Que é que procurais”? Eles então disseram-lhe: “Rabi, que, traduzido, se diz Mestre, onde moras”? Ele diz-lhes: “Vinde e vereis”. Vieram e viram onde morava e ficaram com Ele naquele dia. Era por volta da hora décima» (João 1,35-39).

 «Para onde Eu vou, vós conheceis o caminho. Diz-lhe Tomé: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho?”. Diz-lhe Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Ninguém vem ao Pai senão por mim» (João 14,4-6).

 «A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cf. Marcos 16,15)» (Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, n.º 1).

 «O mundo em que vivemos, e que somos chamados a amar e servir, mesmo nas suas contradições, exige da Igreja que potencie as sinergias em todos os âmbitos da sua missão. E o caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio» (Francisco, Discurso na comemoração do 50.º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, 17 de outubro de 2015).

  

Três anos com a Igreja no coração

1. Iniciámos, na nossa Diocese de Lamego, no passado ano pastoral de 2018-2019, a vivência de um triénio pastoral dedicado à Igreja, com o intuito de revitalizar o nosso amor à Igreja, nossa Mãe, e de renovar o tecido cristão e eclesial da nossa vivência comunitária, paroquial e diocesana, com todas as derivas que desse amor e desse labor possam advir. Colocámos assim, diante de nós, nesse primeiro ano do triénio, o rosto e o jeito da Igreja chamada e enviada em missão, para tomarmos consciência e nos deixarmos envolver mais e mais na nossa vocação de discípulos missionários, chamados e enviados por Jesus. No ano pastoral de 2019-2020, em que agora entramos, ocupar-nos-emos sobretudo com o rosto sinodal da nossa Igreja, que é uma Igreja em caminho e em comunhão, em que todos queremos aprender a caminhar lado-a-lado, como filhos e irmãos, atentos uns aos outros, atentos e dedicados, atentos, dedicados e solidários, porque sabemos que no meio de nós se abre o caminho luminoso, que é Cristo Jesus, cuja luz se reflete também no rosto da Igreja, nossa Mãe, e no nosso rosto de filhos amados e irmanados. Viver em modo de sínodo é viver em modo de peregrinação, em modo de oração, em modo de comunhão, em modo de participação, em modo de conciliação, em modo de irmão. Vivendo todos com denodo e feliz empenho este Caminho, andando neste Caminho, ficará fácil reconhecer, no ano pastoral de 2020-2021, o terceiro do triénio, a verdadeira identidade da Igreja, visível no seu rosto belo e feliz de Esposa de Cristo e Mãe de tantos filhos felizes e comovidos.

 

À procura da identidade da Igreja: Igreja, quem és tu?

2. O Concílio II do Vaticano (1962-1965) debruçou-se intensamente sobre esta temática, e produziu sobre a Igreja uma Constituição Dogmática, que aparece sob o título significativo de Lumen gentium, expressão latina que significa «Luz dos povos». Tentação fácil. Dado que esta Constituição Dogmática tem por assunto a Igreja, e aparece com o título de Lumen gentium [= Luz dos povos], pode parecer lógico e até convidativo associar «Igreja» com «Luz dos povos», e pensar que fica logo ali resolvido o assunto com a proposição: «A Igreja é a luz dos povos», ou «A luz dos povos é a Igreja». Equívoco preconceituoso, talvez vaidoso e autorreferencial. Na verdade, o texto da referida Constituição Dogmática sobre a Igreja abre, com espanto e encanto, desta maneira: «A luz dos povos é Cristo» [= Lumen gentium cum sit Christus]. Extraordinária reviravolta mental, um verdadeiro salto de trapézio que somos obrigados a fazer. Esperávamos, a abrir, uma afirmação sobre a Igreja. Ei-la que incide sobre Cristo. É Ele a luz para todos os homens. Também para a Igreja. Luz primeira, que ilumina todo o homem que vem a este mundo (João 1,9). O texto conciliar continua, denso, claro, intenso e incisivo: «Este sagrado Concílio [= ou Sínodo], reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens» [= haec Sacrosancta Synodus, in Spiritu Sancto congregata, omnes homines claritate Eius, super faciem Ecclesiae resplendente, illuminare vehementer exoptat]. A Luz é Cristo. Mas esta Luz, que é Cristo, resplandece no rosto da Igreja. É o conhecido mysterium lunae dos Padres gregos e latinos do primeiro milénio, entretanto recuperado e utilizado em múltiplas intervenções pelo Papa Francisco, já desde as sessões anteriores ao Conclave, que o havia de eleger Bispo de Roma. Neste modelo de Igreja, vista como mysterium lunae, a Igreja não tem Luz própria, não é nem pode ser autorreferencial. Recebe no seu rosto a Luz de Cristo, como a lua a recebe do sol. A Igreja não pode ser autónoma. Só pode ser Cristónoma. Mas também esta luz de Cristo recebida, e que brilha no rosto da Igreja, não termina na Igreja o seu percurso. Destina-se a iluminar «todos os homens» [= omnes homines]. Eis como o rosto da Igreja tem de ser ecuménico, como ecuménica tem de ser também a sua missão. Note-se ainda, de passagem, como os termos «Concílio» e «Sínodo» são intercambiáveis.

 

Completa vinculação a Cristo

3. Como se vê, a Igreja do Concílio aparece totalmente vinculada a Cristo, dele recebendo toda a sua vida. É a Esposa de Cristo, sem mancha nem ruga (Efésios 5,27), Esposa do Cordeiro (Apocalipse 21,9), «imolado, mas de pé» (Apocalipse 5,6), entenda-se morto, mas ressuscitado, isto é, nas suas próprias palavras, «estive morto, mas agora vivo para sempre» (Apocalipse 1,18), «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), que «nos segura na sua mão direita» (Isaías 41,13; Apocalipse 1,16.20; 2,1), que cuida de nós e nos alimenta (Efésios 5,29). Igreja, Esposa de Cristo, Esposa amada, transparente de beleza e de felicidade (Apocalipse 21,2; cf. Isaías 61,10; Lumen gentium, n.º 7; Evangelii gaudium, n.º 116), rodeada de filhos numerosos (Isaías 49,20-21), de branco vestida, pois lavou e branqueou as suas vestes no sangue do Cordeiro (Apocalipse 7,13-14). Igreja-Esposa vinculada a Cristo, em cujos lábios aparece esta única vez neste dizer de Jesus a Pedro: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja» (Mateus 16,18). Há de ter-se, portanto, bem presente que a construção da Igreja não é obra nossa; é obra de Cristo, que afirma em 1.ª pessoa: «Construirei». E há de notar-se também que a Igreja não é nossa; é de Jesus, pois Jesus diz dela: «a minha Igreja». E acerca de Pedro ser a pedra sobre a qual Cristo constrói a Igreja, veja-se a bela intuição da parábola invertida, que o Papa Francisco desenhou diante dos nossos olhos, e que se pode ver em cima, em epígrafe: «Jesus constituiu a Igreja, colocando no seu vértice o Colégio Apostólico, no qual o apóstolo Pedro é a “pedra” (cf. Mateus 16,18), aquele que deve “confirmar” os irmãos na fé (cf. Lucas 22,32). Nesta Igreja, porém, como numa pirâmide invertida, o vértice situa-se por debaixo da base. Por isso, aqueles que exercem a autoridade chamam-se “ministros”, porque, segundo o significado originário da palavra, são os mais pequenos de todos» (Francisco, Discurso na comemoração do 50.º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, 17 de outubro de 2015). De acordo com a sensibilidade evangélica do Servo de Deus D. Tonino Bello (1935-1993), que foi Bispo da Diocese italiana de Molfetta-Ruvo-Giovinazzo-Terlizzi, as coisas soam assim: minus stare [= minister], e magis stare [= magister].

 

Missão verdadeiramente universal

4. A Igreja de Cristo e do Concílio não vive por si mesma e para si mesma. Recebe a Luz de Cristo, não como privilégio a que se apegar ciosamente, mas para, não de forma vaidosa, mas humilde, com essa Luz, iluminar todos os homens. O texto Conciliar diz claramente todos os homens. Portanto, esta Luz, que é Jesus, não se destina a circular apenas em circuito fechado, entre católicos e seus movimentos, grupos e associações, nem tão-pouco se pode encerrar em grupos particulares de amigos ou de interesses. A missão da Igreja é levar a Luz de Cristo a todos os homens, de todas as raças, línguas, cores, culturas, religiões, situações sociais e humanas, num raio de ação verdadeiramente ecuménico. Mas o texto do Concílio vai ainda mais longe, e, citando Marcos 16,15, quer ver a Igreja «a anunciar o Evangelho a toda a criatura» (pâsa hê ktísis), isto é, a cuidar com carinho do azul do céu e do verde da terra, do ar que respiramos, das árvores, dos mares, dos rios, das colinas, dos vales, dos campos, dos animais, dos passarinhos, cumprindo o mandato que lhe foi confiado pelo Criador (Génesis 1,26 e 28).

 

A questão da sinodalidade: o que é a sinodalidade?

5. Já deu para entender que a Igreja vive entalada entre Cristo, de quem se recebe, e a humanidade inteira, que deve amar e servir. Acrescenta-se agora que o vocábulo “sínodo”, do grego syn-hodós, que significa “fazer caminho juntos”, é muito próximo do termo “concílio”, do latim cum-calere, que significa “chamar juntos”, “ser chamados juntos”, sendo os dois termos, sínodo e concílio, intercambiáveis nos próprios textos conciliares. Não é difícil sentir por debaixo deste calere latino o chão do grego kaléô [= chamar] e do hebraico qahal [= assembleia], de onde vem a nossa ekklêsía, isto é, a Igreja, comunidade dos chamados ou convocados por Deus, como vimos na Carta Pastoral do ano passado (2018-2019). Além disso, vale ainda a pena lembrar a célebre expressão de S. João Crisóstomo que refere que «Igreja e Sínodo são sinónimos», pelo que a sinodalidade não é um slogan à medida de uma qualquer ideologia. Um slogan ou uma moda, um acessório, uma coisa a fazer na Igreja. Não é mais uma coisa a fazer na Igreja, mas é a própria Igreja a fazer-se. Por isso, a sinodalidade tem a idade da Igreja. E é ainda necessário não esquecer a sábia e oportuna orientação que o Papa Francisco nos deixou, no memorável Discurso proferido na comemoração do 50.º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, em 17 de outubro de 2015, já citado em epígrafe, e que aqui, pela sua importância e acuidade, deixo mais uma vez registado: «O mundo em que vivemos, e que somos chamados a amar e servir, mesmo nas suas contradições, exige da Igreja que potencie as sinergias em todos os âmbitos da sua missão. E o caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio». Deus gosta de ver os seus filhos sentados à mesa ou a caminhar juntos, a conversar amigavelmente uns com os outros. Ele próprio dá o exemplo na Escritura inteira, lida em filigrana pelos Padres Conciliares, que assim se expressaram na Constituição Dogmática sobre a Palavra de Deus Dei verbum: «Nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos, a conversar com eles» (n.º 21).

 

«O processo é o resultado»

6. A primeira coisa que se deve dizer acerca da sinodalidade, é que a sinodalidade não é uma coisa para fazer, uma tarefa para cumprir, um assunto para estudar. Resulta daqui que não há um livro, um manual, uma receita que se possa entregar às pessoas, para lhes servir de guia. A segunda coisa é que a sinodalidade é um estilo de vida, uma maneira de viver, um processo em que se entra, não para atingir um determinado objetivo, uma meta, um resultado, porque o processo é já o resultado. «O processo é o resultado»! Trata-se de uma expressão feliz e eficaz, provinda do mundo das ciências da comunicação, e que o teólogo alemão Otto Hermann Pesch (1931-2014) lançou em teologia, e que se ajusta à maravilha ao mundo da sinodalidade, e que significa que a reflexão do Concilio II do Vaticano acerca da Igreja como comunhão, antes de ser um tema discutido, um conceito debatido, foi uma experiência vivida e partilhada. É claro que é Jesus o mestre deste «processo» de «fazer caminho juntos», o mestre da sinodalidade. Veremos esta realidade a acontecer em três passagens dos Evangelhos, para, em seguida, a vermos também a acontecer no tecido vivo e vivido, isto é, no fazer-se do Concílio II do Vaticano. Em suma, e vai passando como uma espécie de refrão: a sinodalidade não é uma coisa a fazer na Igreja, mas é a Igreja a fazer-se.

 

O caminho de Jesus, o Mestre da sinodalidade

7. Deixemo-nos surpreender pelo Mestre que não põe manuais nas mãos dos seus discípulos, nem indica livros de consulta, nem outra bibliografia, outros instrumentos ou meios, simplesmente dispensa meios, mas convida os seus discípulos a entrar no seu caminho, a fazer caminho com Ele. Vejamos esta metodologia mais de perto em três vagas do Evangelho.

 

7.1. Primeira vaga: João 1,35-39

 «No dia seguinte, João estava lá outra vez, e, com ele, dois dos seus discípulos, e fixando os olhos em Jesus, que passava, diz: “Eis o Cordeiro de Deus”. E ouviram-no os dois discípulos a falar e seguiram Jesus. Tendo-se voltado e tendo visto que eles o seguiam, Jesus diz-lhes: “Que é que procurais?”. Eles então disseram-lhe: “Rabi, que, traduzido, se diz Mestre, onde moras?”. Ele diz-lhes: “Vinde e vereis”. Vieram e viram onde morava e ficaram com Ele naquele dia. Era por volta da hora décima» (João 1,35-39).

Resulta fácil compreender que este Jesus que passa, e que é tratado por Mestre, não ensina como os outros, e dá respostas surpreendentes e imprevisíveis. Não ensina conteúdos, mas uma maneira nova de viver. Dá-se a conhecer a quem com Ele quiser fazer o caminho, isto é, a quem aceitar conviver com Ele, partilhar a Sua própria vida, a Sua maneira de viver. E é marcante esta experiência, de tal modo marcante, que estes dois discípulos anotam na agenda do coração a hora inesquecível em que esta convivência começou.

 7.2. Enfrentemos a segunda vaga: João 14,4-6:

 «Para onde Eu vou, vós conheceis o caminho. Diz-lhe Tomé: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho?”. Diz-lhe Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Ninguém vem ao Pai senão por mim» (João 14,4-6).

 

Tomé funciona como nós. Primeiro, definimos o destino ou a meta da viagem. É só depois de definido o destino, que acertamos o caminho que vamos fazer para lá chegar. Sem sabermos o destino aonde queremos chegar, não podemos escolher o caminho para lá chegar. É diferente a metodologia de Jesus. Ele começa por apresentar o caminho. E depois acrescenta: indo por este caminho, chegareis ao destino. Com uma imensa novidade: o caminho não é no mapa. O caminho é pessoal. O caminho é o próprio Jesus, a sua maneira nova de viver: «Eu sou o Caminho», diz Jesus. E o lugar de destino também não se situa no mapa. É um lugar pessoal. É o Pai.

 

7.3. Vem ainda uma terceira vaga: Mateus 11,28-30:

 

«Vinde a mim todos os que andais cansados e afadigados, e eu vos farei repousar. Tomai o meu jugo sobre vós, e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para as vossas vidas, porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve» (11,28-30).

 Tanta clareza que até provoca calafrios nas nossas mentes com lentes e esquadria escolares. Tudo o que Jesus ensina é o modo como ensina, melhor, como vive: «Vinde a mim». Trata-se de aderir à pessoa de Jesus, diretamente, sem intermediários nem meios. «Aprendei de mim». Outra vez. Não há livros, instrumentos, computadores, plataformas online ou velhos quadros, lousas e cadernos. Tão-pouco há professores, animadores ou monitores. Há uma maneira nova de viver, de conviver e de amar para aprender.

 

O caminho do Concílio (Sínodo): a sinodalidade

8. Não vou propor que estudemos o que fez o Concílio ou o que se fez no Concílio. Quem quiser fazer isso, deve consultar os Documentos do Concílio. Proponho, em vez disso, que prestemos mais atenção ao como fez o Concílio ou ao como se fez no Concílio. Esta proposta vai no sentido de analisar e mostrar o método de trabalho usado no Concílio, ou, por outras palavras, o caminho que o Concílio adotou para trabalhar. Em suma, não nos interessa tanto o que, mas o como. Não tanto o que disse o Concílio, mas como o disse, ou melhor, e antes disso, como o viveu. E é aqui que nos deparamos outra vez com a sinodalidade, e compreendemos melhor que a sinodalidade não é apenas uma coisa para fazer na Igreja, mas é a própria Igreja a fazer-se; faz parte da identidade da Igreja, daquilo que a Igreja é desde sempre. A sinodalidade tem, pois, a idade da Igreja. Viver em modo de sínodo é viver em modo de peregrinação, em modo de oração, em modo de comunhão, em modo de participação, em modo de conciliação, em modo de irmão.

 

9. Importa, neste sentido, tomar conhecimento do modo de trabalhar dos participantes no Concílio. Vale a pena passar o filme atrás e constatar que os Padres conciliares eram 2540, oriundos dos cinco continentes, assistidos por 460 peritos, estando presentes também 129 religiosos, 85 delegados, 46 observadores. Um Concílio verdadeiramente ecuménico, como nunca tinha acontecido na Igreja. E esta heterogeneidade de lugares de proveniência traduz-se em culturas diferentes, cores diferentes, línguas diferentes, estilos diferentes, diferentes maneiras de ver, de sentir, de dizer e de fazer. Já ficou expresso atrás que estes 2540 Padres, reunidos no Concílio II do Vaticano, para conciliar, eram diferentes em múltiplos aspetos. Mas unia-os a sua comum humanidade, o seu amor à Igreja e a sua fé em Cristo. Encontraram-se ali reunidos, e tinham uma missão em comum: dizer toda a fé de sempre, num modo novo, ajustado ao homem de hoje.

 

10. Portanto, estes 2540 Padres, diferentes mas unidos na mesma fé de sempre, tinham pela frente uma missão imensa e empenhativa: dizer toda a fé de sempre, num modo novo, ajustado ao homem de hoje. Constatamos em primeiro lugar a presença de 2540 Padres diferentes. Trata-se de um sujeito novo, formado por muitos rostos diferentes, que são chamados a aprender a caminhar juntos, em comunhão, acertando ritmos, passos e modos de fazer, sempre escutando e falando, dialogando e debatendo, rezando e estudando. É o modo como vivem que vão deixar impresso nos Documentos. Os Documentos não são, portanto, simples produto de laboratório, mas retratam a vivência em comunhão destes 2540 Padres conciliares. Foram-lhes entregues esquemas de antemão preparados pela Comissão Preparatória do Concílio. Os Padres, porém, dialogando e caminhando juntos, em comunhão, decidiram pôr de lado esses esquemas, e dar início a um trabalho novo. Acertaram métodos e tempos de trabalho: de manhã, debate em aula conciliar; de tarde, reflexão e troca de impressões. Também decidiram trabalhar em aula conciliar de outubro a dezembro, ficando o restante tempo do ano para maturar ideias. Entretanto, os peritos multiplicavam-se em promover debates em múltiplos centros de reflexão, e em encontrar novas maneiras e expressões de articular e dizer toda a fé de sempre, de modo novo. Quando terminaria o Concílio? Ainda que tenha dito, no Discurso inaugural, em 11 de outubro de 1962, que se devia empregar o tempo que fosse necessário, o Papa S. João XXIII augurava, na noite desse dia, no famoso Discurso da Lua, que talvez pudesse terminar em dezembro de 1962. Os Padres acharam que precisavam de mais tempo. E assim, em dezembro de 1962, interromperam os trabalhos em aula conciliar e regressaram às suas Dioceses, com trabalho de casa para fazer, e regressaram à aula conciliar em outubro de 1963 para mais uma sessão que decorreria até dezembro. O mesmo foi feito em 1964 e 1965.

 

A sinodalidade não é uma coisa a fazer na Igreja; é a Igreja a fazer-se

11. «O caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio», como já vimos no célebre Discurso do Papa Francisco, proferido em 17 de outubro de 2015, na comemoração do 50.º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos (em epígrafe). Sinodalidade é «fazer caminho juntos», lado-a-lado, em comunhão, não obstante as naturais diferenças que haja entre nós. Ou talvez mesmo por causa das diferenças que há entre nós, é que nós temos de aprender a caminhar juntos, acertando ritmos, passos e modos. Se fôssemos todos iguais, nem seria preciso pôr o problema. É assim que a sinodalidade não é uma coisa a fazer na Igreja, mas é a própria Igreja a fazer-se. «Caminhar juntos» com crianças, jovens, pais e avós, amigos, inimigos e indiferentes, sãos e doentes, conhecidos e desconhecidos, ricos e pobres, crentes e descrentes, implica adotar um ritmo, um passo e um modo que sirva a todos, que a todos congregue e que a todos nos mantenha juntos, unidos e reunidos à volta de Jesus, não deixando ninguém para trás, não deixando perder nenhum dos irmãos que Deus nos deu (cf. João 17,12). A sinodalidade leva-nos ao encontro uns dos outros, ao encontro de todos, mesmo de todos, à procura de todos e de cada um, à inclusão de todos e de cada um, pelo que, «fazendo caminho juntos», serão inúmeros os desafios que teremos de enfrentar juntos: manter-nos juntos, unidos e reunidos, cuidar dos doentes, dar atenção aos pobres, velar pela concórdia onde haja discórdia. São inúmeros os desafios a que teremos de responder. Estes desafios e este modo de viver derivam do âmbito do processo da sinodalidade que queremos viver, e que não é apenas mais uma coisa a fazer na Igreja, mas é a própria Igreja a fazer-se. Daí que também o caminho da missão tenha de estar sempre aberto.

 

12. No seguimento de quanto fica exposto, é-me grato propor a todos os meus queridos irmãos e irmãs que comigo peregrinam nesta nossa Diocese de Lamego e suas 223 Paróquias que, no decurso deste ano pastoral de 2019-2020, façamos crescer movimentos envolventes, cada vez mais amplos e envolventes, ao encontro de todos, para a todos incluirmos na nossa peregrinação fraterna, e para que sintamos a alegria de partilharmos a nossa fé de sempre, de modo novo, cada vez com mais irmãos, todos empenhados no caminho longo do diálogo, da escuta e da partilha, da oração, da compreensão, da visitação e da caridade. Viver em modo de sínodo é viver em modo de peregrinação, em modo de oração, em modo de comunhão, em modo de participação, em modo de conciliação, em modo de irmão. Renovo, de forma particular, o apelo a uma nova envolvência na experiência das avalanches da fé. E também a fazermos das nossas peregrinações e procissões verdadeiras experiências de Igreja peregrina, de «fazer caminho juntos», carinhosamente atentos uns aos outros. Neste cenário envolvente, não posso também deixar de repropor um suplemento de esforço para que os órgãos de participação (Conselhos Económicos, Conselhos Pastorais…) se tornem vivos e efetivos em todos os nossos espaços pastorais. E que cresça também em nós o carinho pela boa, bela e fecunda Criação com que Deus, nosso Pai, nos favoreceu, e nos incumbiu de amar.

 

13. E dado que a sinodalidade não é uma coisa a fazer na Igreja, mas a própria Igreja a fazer-se, saúdo afetuosamente e convoco todos os diocesanos da nossa Diocese de Lamego, espalhados pelas suas 223 paróquias: sacerdotes, diáconos, consagrados, consagradas, fiéis leigos, pais, mães, avôs, avós, famílias, jovens, crianças, catequistas, acólitos, leitores, cantores, agentes envolvidos na pastoral, membros dos movimentos de Apostolado, Centros Sociais Paroquiais, Misericórdias, e todas as pessoas e instituições envolvidas neste «trabalho do amor» (1 Tessalonicenses 1,3). A todos peço que experimentemos a alegria de «fazer caminho juntos», sempre todos juntos, acertando, por isso e para isso, ritmos, passos e modos, pois somos todos diferentes, mas todos filhos amados de Deus, que a todos incumbiu de vivermos irmanados e felizes e de velarmos com amor uns pelos outros, carregando os fardos uns dos outros (Gálatas 6,2), ajudando a resolver os problemas uns dos outros. E para todos imploro de Deus a sua bênção, e de Maria, nossa Mãe, a sua proteção carinhosa e maternal.

  

«O lugar para onde Eu vou,
Vós sabeis o caminho para lá», diz Jesus.
«Nós não sabemos para onde vais,
Como podemos saber o caminho para lá?», 
Retorquiu Tomé. 

Tomé é como nós:
Não sabe trabalhar sem metas e objetivos.
E é em função das metas e objetivos,
Que escolhe caminhos e metodologias. 

Deus disse a Abraão: «Vai do teu país
Para o país que Eu te farei ver».
E o narrador diz-nos que «Abraão foi».
Para onde? Para qual país?
Não interessa.
Interessa é saber que uma mão segura nos guia,
E que o caminho que trilhamos nos conduz sempre ao destino.

É assim que faz Jesus também.
Não nos indica no mapa o lugar do destino,
Mas mostra-nos o caminho para chegar lá.
Por isso nos diz: «Vinde atrás de Mim…».

É assim a procissão e a peregrinação.

Ele vai connosco e à nossa frente.
Ele é o caminho, 
A mão segura,
A água pura,
O pão de trigo.

Ensina-nos, Senhor,
A caminhar contigo.

 

 

Lamego, 01 de setembro de 2019, Dia do Senhor e Dia Mundial de Oração pela Criação

+ António, vosso bispo e irmão

 

Diocese de Lamego

Agência Eclesia