Conversão significa orientar a nossa vida para Deus - Mensagem Quaresmal do Senhor Bispo de Lamego

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1. «Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão». É este o lema da mensagem que o Papa Leão XIV propõe à Igreja para viver esta Quaresma de 2026. Como se compreende, não se trata de nos pormos à escuta da vozearia deste mundo, que nos assalta de muitas maneiras, sempre de forma superficial, rápida e barata, ao jeito de um painel publicitário, que indica sempre as últimas modas. A escuta proposta pelo Papa é a escuta qualificada de uma Palavra que vem de Deus e nos atinge nas raízes do coração. Isaías diz de forma contundente: «Nos dias que aí vêm, o monte do Templo do Senhor será fundado no cimo das montanhas, elevado sobre as colinas, e ali afluirão todas as nações, e andarão muitos povos, e dirão: “Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacob. Ele ensinar- -nos-á os seus caminhos, e andaremos nas suas veredas”. Porque de Sião sairá a Lei, e de Jerusalém a Palavra do Senhor» (Isaías 2,2-3).

2. Bem vistas as coisas, Isaías descreve uma peregrinação de povos de todas as nações a Jerusalém. Mas o que nos deve impressionar é que esta imensa peregrinação de gente de todas as nações a Jerusalém não tem em vista nenhuma ida ao mercado das recordações ou do comércio local, nem tão-pouco se propõe visitar algum monumento importante. O seu único objetivo é ouvir a Palavra de Deus, que abre caminhos novos para a nossa vida.

3. Convenhamos que esta proposta de Isaías nos atinge, hoje, a cada um de nós, e a toda a sociedade em que vivemos no verdadeiro pulsar do seu coração, que é, como bem sabemos, a vasta rede comercial e a outra igualmente vasta rede da comunicação social e das estreitas malhas das redes sociais em que vivemos, sabendo-o ou não, mais ou menos enredados e aprisionados.

4. Na sua mensagem para esta Quaresma, o Papa Leão XIV cita apenas dois textos da Escritura. O primeiro é o Livro do Êxodo 3,7, para nos dizer que Deus escuta os clamores do seu povo oprimido no Egito. O segundo é a passagem do Livro de Neemias 9,1-3, para nos dizer que os Israelitas se reuniram para jejuar, vestidos de saco e com a cabeça coberta de terra. Pondo-se pé, confessaram os seus pecados e as culpas dos seus pais. Sempre de pé, foi lido o Livro da Lei de Deus durante três horas, e durante outras três horas confessaram os seus pecados e prostraram-se diante do Senhor, seu Deus.

5. Sublime maneira de dizer que, durante horas e horas a fio, o povo de Israel saiu dos seus afazeres quotidianos e se reuniu à volta do seu Deus, ouvindo a sua Palavra, confessando os seus pecados, reconhecendo a sua condição frágil e mortal, e orientando a sua vida toda para Deus.

6. Orientar a vida toda para Deus requer de nós a leveza do voo dos pássaros. O Papa Leão XIV pede-nos que jejuemos de gestos e palavras ofensivas e banais, que podem ferir os nossos irmãos. Jesus adverte-nos: «Estai atentos para que os vossos corações não fiquem pesados [ou afogados] no meio das preocupações e seduções deste mundo» (Lucas 21,34). É neste sentido que podemos evocar o jejum, para olharmos o próximo com olhar puro, e para alijarmos cargas ofensivas, gestos e palavras que, além de pesarem sobre nós e nos vergarem como juncos (cf. Isaías 58,5), podem também deitar por terra os nossos irmãos.

7. A Quaresma é, como todos sabemos, um tempo importante para mantermos limpa a nossa casa e leve o nosso coração, sem ódios, invejas, indiferenças. É um tempo de graça, de oração e conversão. É um tempo propício para alijarmos cargas negativas, e reforçar os laços da nossa caridade. No ano passado (2025), a esmola da nossa Caridade Quaresmal, ou Renúncia Quaresmal, traduziu-se em 24.889,24 euros, que seguiram para o Líbano, Paróquia de Santo Eliseu (Diocese de Jbeil), para aliviarmos um pouco as dores de cerca de 400 crianças de uma escola católica e de 300 famílias que experimentam carências de toda a ordem.

8. Para esta Quaresma de 2026, proponho que a nossa Caridade Quaresmal ou Renúncia Quaresmal se alargue até ao povo Gumuz, no noroeste da Etiópia, região do Metekel, onde alastra a pobreza, e a educação escolar quase não existe. Há poucas escolas e a insegurança é muita. Por isso, a maior parte das crianças Gumuz começa a poder deslocar-se à escola só aí pelos doze anos. Por isso mesmo, os Missionários Combonianos estão a construir uma escola em Gilgel Beles, capital do Metekel. Vamos, com a nossa Caridade Quaresmal ajudar os Missionários Combonianos a levantar esta escola para as crianças Gumuz. Lembro que temos vários Missionários Combonianos oriundos da nossa Diocese, estando mesmo um, o Rev.do P. Horácio Rossas, natural de Penude, a trabalhar atualmente nas nossas Paróquias. O fruto da nossa Caridade Quaresmal chegará à Etiópia pelas mãos seguras do Rev.do P. José Vieira, natural de Cinfães, que trabalha nessa região da Etiópia. Pensaremos também, se a tanto chegar o fruto da nossa Caridade, em criar um fundo diocesano com que possamos ajudar também algumas famílias pobres afetadas pelas intempéries que nos têm visitado.

9. O anúncio do destino da nossa Caridade Quaresmal será feito, como de costume, em todas as igrejas da nossa Diocese, no Domingo I da Quaresma, realizando-se a Coleta no Domingo de Ramos na Paixão do Senhor. A todos saúdo e desejo, do fundo do meu coração, um caminho de bondade, justiça, verdade, oração, comunhão e conversão. E que a ninguém falte a graça de Deus e a mão fraterna de um irmão. Sintamos todos a alegria de sermos filhos de Deus e de termos tantos irmãos à nossa volta.


Lamego, 18 de fevereiro de 2026, Quarta-Feira de Cinzas Na certeza da minha oração e comunhão convosco, a todos vos abraça o vosso bispo e irmão

+ António